Terra 870

De um ponto no multiverso:

Na Terra 870, há sombras em profusão. Guerras estúpidas, mortes estúpidas, gente estúpida. É um mundo feito de sangue e lágrimas, onde muitos estão cegos e os que possuem clarividência são poucos demais.

Na Terra 870, há cidades cobertas por uma fumaça negra e asfixiante. Há governos e corporações que almejam o controle total do indivíduo – e o fazem secretamente, sem que ninguém perceba. Há assassinatos e há atrocidades, e os mais fortes se orgulham de seu poder, e se enlevam com sua capacidade de matar.

Na Terra 870, animais são trucidados para alimentar os homens, e homens são trucidados para alimentar o horror. E o horror se farta com os sonhos perdidos, com a insanidade sistematizada, com a tristeza que, cedo ou tarde, se tornará o câncer.

Há sombras demais na Terra 870… Eu queria que ela fosse um mundo de alguma ficção terrível, e que pudesse ser esquecida numa pilha de livros, sob o peso de histórias melhores. Mas isso não é possível, porque este é o meu mundo. Esta é nossa Terra.

Se procuramos por personagens e situações que existem tão somente em nossas imaginações, e se nos ocupamos de contar e ouvir histórias que nos afastam, ao menos durante um instante, da escuridão, quem poderá nos culpar? Somos os filhos do desencanto – e nossas frustrações constroem vastos impérios, galáxias distantes de um outro tempo, mundos alternativos que visitamos no silêncio da noite. Audaciosamente, sonhamos.

As sombras persistem e nos toldam a visão – mas nos recusamos a esquecer a luz. E, às vezes, a luz nos alcança…

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Carlos Bittencourt

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