Inferno

outubro 23, 2011 - Comentários desativados

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A vida é uma sombra que passa, um mau ator que gasta sua pompa pelo palco e não se escuta mais. É uma história contada por um louco, cheia de som e fúria, significando nada”.

Macbeth, de William Shakespeare (tradução de Millôr Fernandes)

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O cigarro na mão, ainda uma promessa. Ele apenas escuta as palavras – e tenta afastar a inquietante sensação de reconhecimento. Depois, com uma simples pergunta, procura restabelecer a ordem:

- Você compreende que não há nenhum multiverso? Ao menos, não como o que sua imaginação pinta…

O velho psiquiatra, de cabelos grisalhos e curtos, olhar de águia, sequer pisca – então acende o cigarro. Suas mãos ressequidas tentam dissipar a fumaça, num gesto automático, repetido há décadas. No relógio sobre a mesa atrás do sofá destinado aos pacientes, são seis e meia da tarde. Ao lado da mesa, a única janela do consultório se abre para o pequeno jardim da casa e para o céu avermelhado do crepúsculo.

- O senhor não entende… Eu estava lá… E era tão real quanto agora.

- E você era o capitão… Não, não apenas o capitão… Em dado momento, pelo que me disse, você chegou a ser o Imperador.

Kirk se recosta no sofá.

- Sei o que está pensando. Não é uma compensação por algum complexo de inferioridade.

- Certo. E como é sua vida hoje?

- Sou funcionário público, como sabe. Ganho pouco. Meu casamento é um campo de batalhas. Meu filho se refugiou em sua loucura. Em linhas gerais, minha vida “é uma sombra que passa”…

- “… cheia de som e fúria, e não significa nada”.

- Exato.

- Sua atual mulher, já o ouvi dizer, se sente constantemente ameaçada pelo mundo masculino. Você e todos os homens são os inimigos, as feras que devem ser derrotadas… A Ellen Ripley de sua fantasia é bem semelhante à Ellen Ripley com a qual você está casado, não? Seu filho, David, agora vive num estado de completa alienação – e não era um dos objetivos do David Marcus do “lado de lá” chegar a uma tal “zona irracional”? Percebe que sua ficção científica é uma vestimenta que mal consegue cobrir a nudez da realidade?

Kirk nada responde, olha para os lados como se procurasse por alguma coisa.

- Em nenhum momento de seu dia, você se sente como um capitão, o senhor de seu próprio destino. E do lado de lá, você era controlado por alguma entidade cósmica, incapaz de escolher seu caminho.

- Era real nos mínimos detalhes… Não me parecia uma alegoria. Hoje acordei lembrando de tudo, e foi como se eu tivesse morrido por lá e viesse acordar aqui, de repente. Como se… – Kirk se detém e abaixa a cabeça.

- “Como se…”?

- Como se este mundo fosse o inferno.

- É assim que se sente?

- Do lado de lá, ao menos havia as estrelas. Tiraram o melhor da minha vida e me abandonaram aqui, preso ao chão.

Uma baforada. Um ensaio de neblina no consultório, e um silêncio que se prolonga por um minuto.

- Em sua outra vida, você sequer era um ser original… Era cópia de um outro Kirk, engendrado por uma mente alienígena. Você não era um capitão, mas a cópia de um capitão. Depois, não era um imperador, mas a marionete disfarçada de imperador.

- É verdade.

- Preciso perguntar, Kirk: o que você quer da sua vida? Já tem mais de quarenta anos, e o mundo – este mesmo que você chama de inferno – está girando. O que quer da sua vida?

- Eu não sei. Talvez… Quero de volta o que perdi…

- Chega de falar sobre que perdeu! – o psiquiatra apaga o cigarro no cinzeiro, irritado – Porque o espaço sideral continuará inalcançável, e o chão é o que você tem. O que vai fazer neste mundo, James Kirk? Vai continuar sonhando com jornadas nas estrelas? Vai continuar agindo como um escravo do destino, assumindo que não é capaz de mudar sua vida?

- Eu… hum… Espero que não.

- Bom! – o psiquiatra sorri – Semana que vem, no mesmo horário?

Kirk se levanta do sofá, ajeita o casaco, dá alguns passos: a tristeza o acompanha como uma segunda pele.

- Mesmo horário. Posso fazer uma pergunta?

- Pois não?

- Não há mesmo a menor possibilidade de que essas memórias… De que tudo isso tenha sido real?

O psiquiatra vai até a porta e a abre. Em silêncio.

Após a saída de Kirk, ele caminha calmamente até sua mesa. Sob o vidro colocado sobre o móvel de madeira, seu antigo diploma, agora amarelecido pelo tempo, o encara. Uma das âncoras da realidade construída à sua volta: um lembrete de que este é o mundo que lhe resta.

- Não, não há possibilidade de que o mundo de lá seja real. Caso contrário, estaríamos falando de uma dimensão além daquelas que conhecemos. Uma dimensão entre a luz e a sombra, entre a ciência e a fé. Um lugar situado no que poderíamos chamar de zona do crepúsculo…

Nesse outro universo, agora tão apagado, quase um sussurro em suas empoeiradas lembranças, ele não era um psiquiatra. Nessa realidade além da imaginação, Rod Serling era um criador de sonhos e pesadelos…

- Besteira – diz para si mesmo.

E segue em frente: porque o chão é tudo o que ele tem.

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Carlos Bittencourt

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